Quando a exaustão não está nos planos
- MAGNO AMORIM
- há 10 horas
- 2 min de leitura

Bento era um homem feito de massa cinzenta e firme, mas seus olhos tinham o brilho de quem nunca chegava atrasado. No escritório de argila onde trabalhava, ele era o primeiro a sentar-se à mesa, antes mesmo do sol amarelado cruzar a janela. Ele acreditava que o mundo dependia da sua exaustão.

Para Bento, "suficiente" era uma palavra ofensiva. Se lhe pediam um relatório, ele entregava um testamento. Se lhe pediam uma ideia, ele entregava sua paz de espírito. Ele moldava pedaços de sua própria substância para tapar os buracos de projetos que nem eram seus, sentindo-se um mártir da produtividade.

Com o passar dos meses, Bento começou a encolher. Suas bordas, antes nítidas e fortes, tornaram-se finas e translúcidas. Ele sentia que a empresa era um monstro faminto, sugando sua vitalidade através dos prazos e das luzes fluorescentes que nunca se apagavam.

Em casa, o silêncio era pesado. Bento não tinha mais massa para oferecer à sua poltrona ou aos seus livros. Ele era apenas um rastro de poeira seca de argila, esperando o alarme tocar para voltar ao altar do seu sacrifício diário. Ele sentia-se roubado, uma vítima de um sistema voraz.

Certa manhã, Bento não conseguiu se levantar. Ele desabou sobre a mesa de trabalho, um amontoado de argila sem forma. Foi Lume, sua supervisora, quem o encontrou. Ela não parecia zangada com o atraso, mas sim profundamente confusa com o que via sobre a mesa dele.

"Bento, o que é tudo isso?", perguntou Lume, apontando para a montanha de adornos, detalhes inúteis e horas extras transformadas em documentos que ninguém jamais leria. Bento sussurrou, com a voz rouca: "Eu dei tudo... a empresa me consumiu... eu não tenho mais nada."

Lume suspirou e sentou-se ao lado dele. "Nós pedimos tijolos, Bento. Apenas tijolos simples para construir o muro. Mas você decidiu esculpir estátuas em cada um deles, usando sua própria carne de argila para fazer detalhes que não solicitamos."

Bento olhou para as mãos de Lume. Eram sólidas, plenas e saudáveis. Ela não estava exausta. Ela trabalhava o necessário e levava o resto de sua massa para casa, para viver sua própria vida. O monstro que ele achava que o devorava era, na verdade, sua própria necessidade de dar o que não fora pedido.

"Ninguém queria seu sacrifício, Bento", disse Lume gentilmente. "Nós queríamos apenas o seu trabalho. Você se desfez por um altar que você mesmo construiu." A revelação atingiu Bento como um cinzel. Ele não era uma vítima de roubo; ele era o autor de um desperdício involuntário.

Bento levou tempo para se reconstruir, adicionando água e descanso à sua massa ressecada. Ele aprendeu a arte de ser "suficiente". Agora, ele entrega o tijolo que lhe pedem, guarda o resto de si para o pôr do sol, e descobriu que a vida é muito mais bonita quando não é moldada pela exaustão.
Magno Amorim
Psicólogo Clínico
(11) 9.7454-2963




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